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Séries de TV

Doctor Who: The End of Time, Parte 1

Mais inconstante que uma viagem espaço-temporal.

Todos aqueles que não residiam na Inglaterra resolveram conhecer Doctor Who em 2010, quando o produtor e roteirista Steven Moffat assumiu a direção criativa da série que, na verdade, já era exibida desde 1963. Como sempre, fui atraído pela babação de ovo desenfreada, pelos adjetivos exagerados e pelo impulso hipster de dizer que assisto a uma série inglesa. Muito se falou do trabalho primoroso que Moffat havia feito, misturando o universo de ficção científica do personagem com histórias de fantasia. Logicamente me senti obrigado a acompanhá-la. Mas como não sou asiático, a ponto de ter a determinação para assistir mais 600 episódios, fiz minha iniciação justamente com a releitura da série criada a partir de 2005. Neste ano foi ao ar a 1ª temporada da nova interpretação de Doctor Who feita por Russell T Davies, grande responsável pelos esforços de trazer a série de volta ao ar, uma vez que sua produção havia sido encerrada em 1989 (nesse meio tempo, um filme para TV foi produzido, em 1996, mas ele equivale à nova trilogia de Star Wars, com boas doses de vergonha alheia). O objetivo era apresentá-lo a um novo público (como eu), sem esquecer tudo o que já havia acontecido na série desde a década de 60. Um trabalho difícil, mas a estrutura de Doctor Who permite essa liberdade: mesmo que as histórias sejam independentes, elas estão sempre jogando informações para que você compreenda aquele universo de mais de 40 anos de existência. Então, para chegar ao ponto em que Moffat assumia a série, eu precisava passar pelos quatro primeiros anos, mesmo que muitos dissessem que era perfeitamente possível compreender as tramas começando a partir da 5 ª temporada de 2010. Ora, a 1ª temporada é assim chamada por marcar o início. Até onde eu sei, a série não é escrita por Julio Cortázar. Resolvi encarar sem problemas, afinal cada uma delas tinha apenas 13 episódios e um capítulo especial de fim de ano. Só que eu não conhecia o estilo de Russell T Davies. E ele tornou essa jornada, por vezes, um pouco difícil.

O seu comando da série é bastante inconsistente, cheio de momentos apoteóticos e tramas enfadonhas. Só pude compreender que valia a pena insistir graças justamente aos episódios escritos por Steven Moffat, que me provaram que era verdade o que diziam sobre seus roteiros (como qualquer outro seriado, Doctor Who é comandado por um showrunner, que também escreve episódios, sendo que de 2005 a 2009 este cargo foi de Russell T Davies, enquanto outros roteiristas também trabalham em capítulos avulsos). Não que fosse exatamente ruim. É empolgante, os personagens, pelo menos, são extremamente simpáticos, sem contar todas as peculiaridades que a cultura e o humor britânico trazem. Mas o fato é que as histórias de Davies eram carregadas de uma breguice escancarada.

E esta semana enfim alcancei o momento final da era Russell T Davies. Excepcionalmente, ao final da 4ª temporada foram feitos quatro capítulos especiais, que foram exibidos ao longo de 2009, preparando a transição para a história que Moffat assumiria. E para fechar sua interpretação de Doctor Who, Russell T Davies produziu um episódio duplo, que foi ao ar no Natal de 2009 e Ano Novo de 2010: The End of Time. Até o título apresenta pretensões grandiosas. Entretanto, por mais que seu roteirista consiga incutir uma monumental carga épica e dramática nesse desfecho, com direito a narrações sombrias em off, trazendo de volta um dos grandes inimigos do Doctor e criando uma história de proporções devastadoras para a mitologia da série, ele jamais consegue realizar isso de modo orgânico.

Davies é geralmente inapto no momento de montar as histórias que quer contar, tanto que muitas vezes as soluções dos seus roteiros soam forçadas, tiradas da cartola para chegar ao clímax que ele pretende alcançar. E é simplesmente por causa desses problemas inerentes à sua escrita que a primeira parte de The End of Time não funciona muito bem. O que é uma pena, porque ainda assim a história transparece o amor que Davies sente por aquele mundo, pelos personagens e pelo ícone que ajudou a reerguer. Isso fica claro principalmente nos instantes finais, quando percebemos que as ações do Master provocaram de algum modo o retorno dos Senhores do Tempo. É um movimento ousado da parte de Davies: tentar encaixar de novo na história a raça extinta a qual pertence o Doctor, mesmo que provavelmente seja apenas para essa conclusão, já que duvido que eles permaneçam na cronologia estabelecida a partir daí, uma vez que um dos grandes traços da personalidade do personagem principal é a sua solidão no universo.

O maior problema, então, é o que Davies faz para chegar ao cliffhanger do final do episódio. Para o Master renascer e colocar seu plano em movimento, ele depende da intervenção de personagens introduzidos de última hora, o que torna seu retorno bastante artificial. A ideia de que havia um núcleo de culto a Harold Saxon parece absurda e inclusive nega algumas informações que já conhecíamos, pois presumia-se, e o próprio Doctor afirma isso no episódio, que Lucy, a antiga mulher do Master, era a única que se lembrava dos acontecimentos do final da 3ª temporada. Inclusive, é incrível como ele joga fora toda a significância da cena pós-“morte” do Master, em que um personagem desconhecido aparece pegando seu anel. Tudo isso perde impacto quando descobrimos aqui que esta figura misteriosa é uma velha fanática que nunca vimos na vida. Aliás, toda a cena envolvendo a ressurreição é esdrúxula. É difícil acreditar que existia uma resistência da qual Lucy fazia parte e que acreditava que um dia Saxon/Master poderia voltar. Outros elementos do roteiro ainda, como o personagem de Joshua Naismith e o Portal da Imortalidade, são meros Deus ex machina criados para que o final apoteótico aconteça. Ora, e como o roteiro explica isso? É apenas uma convergência de acontecimentos cósmicos, conspirando para o fim dos tempos! Claro, isso faz parte da “nomenclatura”, digamos assim, de Doctor Who. Mas tudo é muito atropelado, jogado, e Davies parece não se esforçar para tornar isso mais natural.

Me impressiona realmente essa capacidade do roteirista de criar uma história tão descompassada, uma vez que ele já provou ser capaz de construir arcos genuinamente coesos. O especial que foi ao ar antes de The End of Time, chamado de The Waters from Mars, é quase o oposto do capítulo que estou comentando aqui. O enredo é humano, bem elaborado e tira proveito precisamente dos dilemas do Doctor como viajante do tempo. É nessas horas que você percebe que Davies é capaz de aliar os momentos emocionantes que tanto gosta com histórias bem conduzidas.

De todo modo, o mais impressionante mesmo é que, ainda com essas escolhas desacertadas, ele consegue empolgar. Como eu disse, o final é apoteótico. É inevitável você ficar curioso para descobrir qual o papel dos Senhores do Tempo nisso tudo. É inevitável torcer pelo Doctor. É inevitável se emocionar com a trilha sonora. Pois ao menos as histórias de Russell T Davies têm coração. De alguma forma vai valer a pena.

E eu acredito que não vou precisar voltar no tempo para me impedir de assistir a tudo isso.

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