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Séries de TV

Doctor Who: The End of Time, Parte 2

E então vieram as quatro batidas.

Se ao chegar ao fim de uma história você sentir como se estivesse se despedindo de algum amigo íntimo, é porque, de alguma forma, ela funcionou. A história funciona quando você sente apego pelos personagens que estão partindo. Quando você sente saudade da trama que está mudando. Em outras palavras, uma história vai ser minimamente bem sucedida caso toque num elemento básico: a identificação do público. E o que o público de Doctor Who procura está aqui nesta segunda parte de The End of Time: poder ver tomar forma aventuras que parecem saídas de nossa infância.

Por mais que Russell T Davies falhe na montagem de sua trama, uma vez que ele chega no ponto de virada do roteiro, em que toda a situação já está armada, ele consegue prosseguir sem maiores problemas. Claro, ele pode estragar tudo no desenlace da história, como frequentemente também faz, criando reviravoltas esdrúxulas com justificativas piegas (nunca vou esquecer o fim da 3ª temporada em que o Doctor é salvo por uma solução digna dos filmes de Pokémon. Pois é. De forma semelhante ao filme dos monstrengos japoneses, são as lágrimas e a paixão do povo da Terra que ressuscita o Doctor no momento fatídico. Isso se chama trauma de infância. Ou: cagadas de roteiro que até uma criança de 9 anos pode perceber). Mas dessa vez ela tem todo o tempo de que precisa para desenvolver seu desfecho e a certeza de que aquela é a sua maior história e sua despedida à frente da série. Por isso os momentos emocionais não são gratuitos e, por mais que nossas expectativas em relação a Russell T Davies provem o contrário, também não são exagerados.

Vejamos. A conversa entre o Doctor e Wilfred na nave é um dos momentos mais sinceros já escritos por Davies. Percebemos a dúvida do Doctor e um genuíno receio em relação ao seu próprio destino. É interessante ver um roteirista geralmente pouco sutil conseguir arrancar um instante com significados. A decisão do personagem de aceitar ou não a arma de Wilfred, como simbologia para a própria natureza altruísta do Doctor, e, ao mesmo tempo, servindo para mostrar como ele é capaz de medidas drásticas quando é necessário, o que acontece no momento em que enfim decide empunhar o revólver, é algo recompensador.

Claro que o episódio não está livre de extravagâncias. A perseguição dos mísseis é simplória e não serve exatamente para aumentar a carga de suspense, aparecendo apenas para cumprir a cota de cenas de ação. Por outro lado, para compensar esse tempo mal aproveitado e criar um encerramento mais coeso e que, impressionantemente, foge das soluções estapafúrdias do roteirista, o confronto final e a revelação de que os verdadeiros inimigos são os próprios Senhores do Tempo cai muito bem.  Primeiro porque há uma subversão do que se esperava desta tão comentada “raça superior”. O uso deles como “vilões” é engenhoso e essa é uma das poucas vezes que as ideias plantadas por Davies ao longo dos episódios não tem uma resolução forçada. A ideia de que o Master era a chave para salvar os Senhores do Tempo de uma guerra que eles próprios criaram é algo tão crível quanto a arrogância da nossa querida raça humana. Essa analogia cai como uma luva. Além disso, esse conflito é igualmente satisfatório por não se basear, como já disse, em mirabolâncias, em explicações pseudo-científicas e afins. Tudo se resume a uma escolha do Doctor, a uma dilema, a uma batalha interna: culpar o Master por tudo ou ser mais uma vez o causador da extinção da sua raça. Isso enriquece o momento e traz muito mais suspense do que uma corrida desenfreada por um artefato mágico que salvará a todos, por exemplo.  Isso sem contar a identidade nunca revelada da mulher que aparece para Wilfred ao longo das duas partes de The End of Time, e que o Doctor também vê antes de tomar sua decisão (especula-se que seja sua mãe). Isso, meus caros, é o princípio de Lost: nós não precisamos saber de tudo. Perguntas, às vezes, são mais bem-vindas.

Ainda assim, há um outro motivo muito maior para que o episódio e toda a conclusão que Russell T Davies escolheu para sua história funcionem: a despedida de David Tennant. Se o episódio não servisse de encerramento para sua encarnação do Doctor, talvez ele não tivesse o mesmo impacto emocional. Tennant se tornou tão Doctor quanto Daniel Radcliffe incorporou Harry Potter ou Sean Connery imortalizou James Bond. A diferença é que Tennant é bom ator. Então foram três temporadas fechadas com uma cena mais do que saudosista. Russell T Davies soube se aproveitar desse momento. Confesso que fiquei um pouco perdido no começo. Talvez a cena de Martha e Mickey tenha sido aleatória demais para iniciar a montagem final (de cara eu não consegui identificar onde eles estavam e em que situação se encontravam). Mas colocar o Doctor para visitar em todas as linhas do tempo todos aqueles que cruzaram seu caminho nesses quatro anos teve um toque especial e essencial para sua despedida. E tudo tinha uma carga dramática muito maior, já que sabíamos que ele estava caminhando para sua morte. E assim como o Doctor, Russell T Davies sabia o que devia ser feito para esse final chegar.

Curioso como duas partes de um mesmo episódio podem ser tão distintas na atmosfera e na condução dos acontecimentos. Parece que, ao chegar o derradeiro final, o roteirista sabia com o que tinha de lidar. Davies encontrou seu tom como poucas vezes o fez.

Mas ele também deve muito desse sucesso à personalidade vibrante de David Tennant.

Outras observações:

– Só mais uma coisa merece destaque aqui: Timothy Dalton como o Presidente dos Senhores do Tempo. Pronto. É isso.

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