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Séries de TV

À primeira vista: House of Lies – 1×01: Gods of Dangerous Financial Instruments

Consultoria de negócios pode ser divertida! Ou não.

House of Lies parece sofrer de um pequeno conflito interno. Não necessariamente de identidade. Às vezes ela é tipo aquele seu tio bonachão que faz piadinhas de sacanagem (o que, não sei por quê, me lembra Two and Half Men). Em outros momentos ela quer se exibir toda e mostrar que faz uma comédia sofisticada para adultos. No fim das contas, você só registra que viu alguns pares de peito durante a exibição.

Nova série do Showtime, House of Lies vem para ficar ao lado das outras comédias “para gente grande” do canal, como Californication, Weeds e Nurse Jackie. O gênero já se tornou uma das marcas da emissora, e alguns desses seriados são reconhecidos por sua qualidade. Mas, como não assisto a nenhuma dessas séries, vou me ater a House of Lies.

A impressão que fica é de que os roteiristas estão achando o máximo o fato de estarem sendo transmitidos por um canal a cabo, que permite maiores “liberdades criativas”. Ou seja, bundas, peitos e sexo. Eu estou reclamando de bundas, peitos e sexo? Talvez um pouco. A questão é que esses elementos ficam bastante gratuitos no episódio, que acha que isso é sinônimo de humor adulto. Fala-se de sexo pra cá, sexo pra lá, há uma cena numa boate de striptease, uma outra que mostra uma trepada lésbica, o protagonista insiste em dar em cima de uma amiga do trabalho e depois acaba transando, dentro de um carro, com a mãe de uma colega do seu filho. Essa safadeza escancarada acaba tendo um efeito contrário: ao invés de ser libertador, torna a série semelhante àqueles filmes adolescentes de sacanagem a la American Pie. A recorrência do uso do sexo ao longo do episódio inclusive diminui parte do impacto da cena inicial, com um cold open para Marty Kaan acordando nu ao lado de sua ex-mulher. Ao ver esse tipo de recurso repetido, esse primeiro momento acaba diminuído.

E não são apenas esses os excessos aqui. Mas vamos por partes.

É interessante a premissa de fazer humor em cima de um meio burocrático, frio e engravatado. Não que seja a coisa mais original do mundo. Monty Python, The Office e outros já tiraram proveito desta ambientação. E é justamente aqui que House of Lies quer parecer sofisticada. A ideia é ironizar, logicamente, a área de consultoria de negócios e as falsas verdades contadas pelas grandes empresas.

O episódio, e a série, têm até um potencial crítico, já que tomam proveito da atual situação de recessão nos Estados Unidos, e o tema inclusive é um dos pontos centrais desse piloto. Entretanto, essa abordagem permanece superficial. Ao invés de tratar melhor disso, a série está mais preocupada mesmo em ridicularizar o meio corporativo. Algumas piadas são até bem inseridas, principalmente através do uso do freeze frame, onde Marty Kaan quebra a quarta parede e se comunica diretamente com o público, falando para a câmera e explicando com algum sarcasmo termos e expressões da profissão. Um dos melhores momentos desse recurso ocorre quando Kaan vai apresentar a um cliente sua proposta de consultoria e didaticamente dá uma “aula” ao espectador, mostrando plaquinhas que indicam o que ele vai tentar fazer a seguir. Mas é incrível como essas piadas acabam se voltando contra o próprio roteiro. Pois se em um instante eles fazem humor com o jargão ininteligível e pedante do mundo dos negócios, no outro somos incapazes de acompanhar o que eles estão falando precisamente, como na cena final da reunião.

Em um outro núcleo, nós temos também a tentativa, sempre recorrente em qualquer série, de fazer piada com a família. Pra variar, a de Marty Kaan é supostamente desestruturada: ex-mulher competitiva e neurótica; pai psiquiatra que tende a analisar a todos; filho com inclinações homossexuais; e uma mãe que se suicidou. Apesar de no piloto esta trama ser tocada por alto, dá pra imaginar os direcionamentos que isso pode levar. As comédias americanas não conseguem inovar muito nesse campo, e as tendências são sempre as mesmas. Ao menos aqui há uma situação que talvez se diferencie um pouco, que é a relação de Marty com seu filho Roscoe, um garotinho de aparentemente 10 anos que sonha em fazer o principal papel feminino na peça da escola. O interesse nesse caso se deve muito ao ator que interpreta o garoto, que apesar de ser um pouco afetado às vezes, não carrega muito na caricatura. Infelizmente a trama de pai e filho até o momento é extremamente genérica, servindo para mostrar apenas o tipo de homem mesquinho e egocêntrico que Marty é (um tipo de personagem cada vez mais batido na televisão).

Mesmo com essa tentativa de fazer comédia que falha em alguns momentos e com um personagem principal que é apenas um canalha sem escrúpulos como tantos outros (sim, nós entendemos que o excesso de sexo também é pra mostrar sua devassidão), House of Lies parece ter algum espírito graças à performance de Don Cheadle como Marty Kaan. Apesar de algumas piadas não serem lá muito boas, ele encontra o timing, e seu personagem, derivado de Charlie Sheen, acaba sendo salvo por sua interpretação. Chadle quase faz a série valer a pena.

Mas vamos ver se devo ou não continuar a assistir. Talvez mais um episódio para dar a chance da série maturar sua fórmula e as relações entre os personagens.

De toda forma, pelo menos dá pra ver alguns peitos.

Outras observações:

– Por mais gracinha que seja Kristen Bell e os outros parceiros da empresa de consultoria, os personagens coadjuvantes coadjuvaram demais nesse episódio.

– Talvez se os roteiristas apostarem mais no absurdo, a série consiga atrair um maior interesse.

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