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Séries de TV

Fringe – 4×09: Enemy of My Enemy

Que é isso, gente? Todo mundo aqui é amigo…

Quando Robert Jones apareceu na não tão saudosa 1ª temporada de Fringe, o arco que envolvia o personagem foi responsável pelo ponto alto daquele ano da série. Não que ele, sozinho, tenha centralizado todos os méritos ali. Mas ele entrou num momento crucial para Fringe se estabelecer, e entrou com uma função bastante clara: representar um desafio visível para os protagonistas. Ou seja, Robert Jones deveria dar cara a um vilão, algo que o espectador pudesse identificar como uma ameaça e, claro, delinear uma trama maior para a 1ª temporada como um todo. Agora, em Enemy of My Enemy, seu papel não é exatamente o mesmo, mas ele de certa forma contribui para dar maiores propósitos a um enredo que, bem, não poderia se sustentar simplesmente na tentativa de Peter voltar pra sua linha do tempo. O que é excelente, já que Robert Jones faz um vilão primoroso (muito por causa de Jared Harris e sua cara de inglês torto estuprador. Não, sério, sua feiúra ajuda, mas ele pesa cada palavra com o tom ameaçador certo).

Depois de evoluir tanto e assumir riscos com sua história, Fringe chega num ponto que pode ir além: ela não precisa mais usar o personagem somente como um recurso. A série tem a possibilidade agora de experimentar com sua própria estrutura e ainda apelar para a memória e o saudosismo dos fãs, trazendo de volta um vilão emblemático, que, no contexto da 4ª temporada, serve ainda para mudar as relações entre os dois universos. Isso é uma prova incontestável de que a série aprendeu a criar dentro de sua própria fórmula, sem medo de mudar as dinâmicas entre os personagens, o que, nesse caso, é algo bastante significativo, dado o antigo antagonismo entre o lado A e o lado B. No entanto, numa trama como essa, só é preciso tomar cuidado para tudo não soar como uma reciclagem de ideias. Há um momento do episódio que chega a acenar para esse perigoso território. Me refiro à cena final, com Robert Jones se comunicando com Nina Sharp. O recurso do “personagem misterioso do outro lado da máquina de escrever” já foi usado mais de uma vez em todas as temporadas desde a segunda. Apesar de eu acreditar que seria difícil os roteiristas caírem na armadilha da repetição, devido às circunstâncias atuais da história, não deixa de causar preocupação quando eles parecem confundir uma ideia reaproveitada como sendo uma homenagem aos fãs.

À parte disso, a trama, como já dava pra sentir desde a semana anterior, parece tomar novos rumos, ganhando um elemento que não havia surgido propriamente nessa temporada ainda: a tensão. Enemy of My Enemy é uma continuação direta e natural do último episódio e, felizmente, não deixa a ampola de cortexiphan cair. Além disso, pela primeira vez não senti que estava acompanhando personagens estranhos ou versões variantes daqueles que conhecia. Os sentimentos transmitidos aqui me pareceram genuínos de um modo que há algum tempo não era tratado na série (talvez o mais próximo que essa temporada chegou ao retratar os dramas dos “novos” protagonistas tenha acontecido no 4×04: Subject 9, que mostra um lado peculiar da relação entre Olivia e Walter). O momento de maior destaque desse aspecto aqui fica por conta da cena entre Walter e Elizabeth, não apenas pelo trabalho de atuação ótimo dos dois, mas também pelo diálogo repleto de significado e, o detalhe mais prazeroso de todos, a representação de Elizabeth como a “tulipa branca” de Walter nessa linha do tempo. O fato de a história usar a personagem dela como o perdão para as ações de Walter simboliza algo muito grande dentro da mitologia da série. Aquele episódio da 2ª temporada (2×18: White Tulip) marca um dos grandes pontos de virada para Walter, o que, neste caso, não deixa de ter o mesmo efeito. Inclusive, essa cena leva a outro momento de excelente condução das relações agora formadas, mostrando Walter, enfim, se aproximando de Peter nessa linha do tempo. E por que parar por aí? Gostei bastante também de ver uma sensível aproximação entre Olivia e Peter. A troca de olhares ao final, depois da “reunião” entre os dois universos, um sorriso simpático de Peter aqui, umas piadinhas de Olivia ali, e a cena no campo de mineração em que percebemos a genuína preocupação dele quando Olivia quase é cortada ao meio pelo “portal”, tudo isso indica uma diferente perspectiva por parte de Peter.

Em uma análise mais ampla, essa abordagem me agrada muito. A série começa a jogar com a nossa percepção através dos olhos do próprio Peter, o que, pelo menos em mim, causa um efeito curioso. Por meio do personagem dele começamos também a não ver aquelas pessoas como meras “versões” do antigo universo, e sim como novas “essências” daqueles que ele amava. Apesar disso não ser nitidamente expresso, há um trabalho de subtexto aqui que dá algumas indicações de que ele pode começar a confundir esses sentimentos, aprendendo a se apegar àquela nova realidade. Isso fica um pouco mais nítido na conversa final entre Peter e Walter, na qual que ele genuinamente se emociona ao perceber que aquele é, em essência, o homem que aprendeu a chamar de pai.  E, como não podia deixar de ser, se tratando de Fringe, isso me leva a uma teoria. Esses instantes significativos me deram a entender que, de algum modo, a realidade vai se moldar em torno de Peter, gradativamente se reestabelecendo na linha do tempo anterior graças à sua presença e interferência. Ele vai se apaixonar por Olivia, afinal, aquela É Olivia. Ele vai criar laços com Walter, e assim por diante. Claro que nem tudo é tão óbvio e isso é uma suposição. Mas algumas relações batem. Por exemplo, o Broyles do lado B nessa linha do tempo aparentemente morreu também, uma vez que foi supostamente substituído por um shapeshifter.  Por outro lado, essa versão de Walternate é claramente mais comedida que a antiga, o que entraria em conflito com a visão amarga e vingativa que já conhecemos, me parecendo improvável que ele se torne um “vilão” mais uma vez. O mesmo vale pra Nina Sharp, que aqui parece ter objetivos mais… perversos.

Independente desses pensamentos, é perceptível que os roteiristas estão buscando trabalhar essas relações de um jeito que nos faça colocar em questão nossa impressão desses personagens. Mesmo que traga uma sensação dúbia, nos levando, em alguns momentos, a não reconhecer aqueles como os personagens a que fomos apresentados no início da série, os roteiristas conseguiram alcançar uma reação bastante interessante dessa dúvida ao tentar nos fazer enxergar que, de uma forma ou de outra, aqueles são os mesmos personagens.

Ao parecer que encontrou um caminho pra essa temporada, Fringe me dá esperanças de que os roteiristas ainda consigam tirar algo de proveitoso da confusão que tinham armado até agora.

E eu me sinto muito feliz como “cobaia” desse jogo de percepções.

Outras observações:

– Broyles é o infiltrado perfeito. Shapeshifter ou não, ele é tão impassível que até sua mãe não perceberia.

– John Noble. Só isso. Aliás, só isso não. Ele teve excelentes momentos não só como Walter, mas como Walternate. E até Joshua Jackson, que não é o mais brilhante entre seus colegas de elenco, conseguiu mostrar sutileza nas interpretações.

– E digo mais: tá pra existir uma ficção científica com atores tão seguros. Isso foi só pra falar de Jared Harris de novo.

– Ok, fico satisfeito com essas “brincadeiras” com as impressões que temos dos personagens, mas temo em me decepcionar. Sempre há a possibilidade dos roteiristas jogarem no lixo grandes desenvolvimentos dos outros três anos da série.

– Então, Nina Sharp voltando a ter um papel ambíguo… Eu teria ficado mais chocado com a “reviravolta” do final do episódio se estivesse lembrado que ela ainda está na história.

– Ah, também gostei do discurso de Peter ao final da conferência entre o lado A e o lado B.

– Escovar vacas: uma habilidade reservada apenas aos grandes cientistas.

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