//
Séries de TV

Alcatraz – 1×04: Cal Sweeney

Comparar é preciso.

Vamos falar sobre Sawyer. Ele era um personagem inicialmente difícil de se apegar em Lost, justamente por seu claro desvio de caráter e arrogância, mas isso era apenas uma parte de sua personalidade complexa e difícil de ser julgada à primeira vista. A série foi tão hábil em tratar essa dubiedade que, algum tempo depois, esses traços se transformaram em um dos grandes charmes de James Ford. E por que estou falando de Sawyer e Lost, mais uma vez, aqui? Simplesmente porque Alcatraz não consegue evitar essas comparações. Talvez eu já esteja condicionado a procurar essas semelhanças, mas neste caso foi inevitável. Cal Sweeney, o prisioneiro em quem a história é centrada, é uma clara derivação do nosso saudoso golpista. São vários comportamentos que levam a essa constatação: ele se aproveita das mulheres para conseguir efetuar seus roubos; na primeira cena do seu flashback, vemos que Sweeney age como um negociador dentro da prisão, realizando barganhas com todos os outros cativos; além disso, nessa mesma sequência, podemos constatar sua explícita filosofia de “cada homem por si”. Todas essas são características primordiais que definiam o personagem de Lost, e que vemos nitidamente replicadas nesse episódio. Até mesmo a resolução dada para a história de Cal Sweeney, didaticamente explicada em uma das partes do flashback, remete à vida amarga e solitária de Sawyer, que desde cedo precisou aprender a se virar sozinho. Assim fica difícil.

Aliás, por falar em flashbacks, sua importância continua sendo circunstancial. Ao invés de procurar se desapegar de seus ranços, Alcatraz parece se esforçar para seguir firmemente com sua fórmula. Afinal, essas cenas de flashback servem somente para o caso. Depois, adeus. É exatamente a mesma coisa que falei na crítica do 1×03: Kit Nelson. Em relação ao personagem central, eles se restringem a entregar estritamente o necessário para entendermos a motivação do personagem, sem que o prisioneiro reverbere na trama maior da série ou ganhe relevância a longo prazo. Ainda acho que teremos que esperar mais para saber se tiraremos algo mais desses flashbacks, mas por enquanto… bem, eles só trazem pequenas histórias de moderado interesse.

Pra não dizerem que estou de má vontade, até dá para notar uma tentativa de trazer informações extras nesses momentos do passado. Os roteiristas demonstraram que querem ser mais flexíveis, e buscaram apresentar nuances de outros personagens, e da própria trama da série, por meio das cenas dos flashbacks. Então temos a chance de ver a Dra. Sangupta/Lucy falar da sua especialidade em Psicologia e de como ela acha que as transgressões dos presos estão geralmente ligadas a traumas de infância ou a grandes decepções em suas vidas. Diga-se de passagem, foi exatamente o que vimos nos casos até agora, com todos agindo por um impulso psicopata para se conectarem com experiências da infância. Não deixa de ser interessante essa possível dica. Os traços de todos esses detentos seriam meras coincidências?

Temos a chance também de ver com mais profundidade, e, é bom dizer, de maneira melhor trabalhada do que muito outros personagens até agora, a personalidade de E. B. Tiller. Ele parece ser um homem que não toma com muita naturalidade a sua posição subalterna, e aqui sua ganância fica mais pronunciada. Tiller também dá a impressão de que não gosta que o vejam como um fraco, demonstrando um genuíno desconforto ao ter que expor sua irmã deficiente mental. Não à toa, pelas sutilezas dos discursos e dos comportamentos, a cena do jantar de aniversário de Tiller é certamente o melhor momento do episódio. Podemos inclusive observar Alcatraz aplicando toda a cartilha aprendida com Mad Men, colocando seus personagens para desrespeitar as mulheres com cavalheirismo.

É também um tanto louvável a tentativa da série de instigar um pouco mais nossa curiosidade com a trama das chaves e do prisioneiro misterioso que reside no subsolo de Alcatraz. Sim, é bom perceber que eles estão investindo em arcos mais duradouros… agora, se isso é suficiente para prender nossa atenção, é outra história. Me senti atraído pela série no começo (ainda estamos no começo, mas tudo bem) por achar que sua história tinha potencial, e não deixa de gerar perguntas o fato, por exemplo, das chaves aparentemente terem sido fabricadas através de técnicas modernas, ao tempo que vemos as duas abrindo a porta do subsolo em 1960. Só que Alcatraz precisa nos dar, para que essas revelações sejam mais instigantes, um maior senso de coesão. Sua estrutura formulaica acaba impedindo esse tipo de desenvolvimento, e esse é um dos grandes motivos que me afastam das séries procedimentais. No entanto, se até mesmo esse padrão de comportamento dos presidiários que ressurgem em 2012 representar um plano bem maior, talvez consigam me convencer de que algumas coisas foram previamente pensadas. Senão, fica difícil aceitar que esses criminosos reapareçam simplesmente para continuarem a praticar os crimes pelos quais foram condenados no passado, como se eles não pudessem se desprender de seu próprio modus operandi e quisessem apenas se divertir de novo. Quer dizer… se for tão simples assim, talvez eles não sejam tão perigosos.

E você? Ainda há espaço para sua paciência?

Outras observações:

– Tive a impressão de que passamos menos tempo que o normal com nosso trio de protagonistas. Menos mal… pouco a acrescentar aqui.

– Na verdade, o personagem de Diego Soto parece ser o único que tem novas informações jogadas nos episódios. O caso aqui, ao contrário do anterior, não refletiu muito nele, mas ao menos descobrimos que ele parece ter maiores problemas do que transparece.

– Luta corporal no banheiro é sempre legal, certo?

– “A caneta é mais afiada que a espada”, como disse o Diretor em seu discurso. Haha, legal. Aí Tiller pega e crava a caneta na perna de Sweeney. Consigo até imaginar os roteiristas tendo essa ideia brilhante.

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: